Conto

O Último Uivo do Gato de Rua

Autor: Dimi | 26/08/2025 | Categoria: Drama

O show acabou, mas o cheiro de suor, cerveja e amplificadores queimados ainda colava nas paredes do porão. Zé Catinga, baixista dos Ratos de Esgoto, arrastava os pés entre latas de tinta e cabos enrolados. Foi então que ouviu: um miado rouco, quase um grunhido, vindo do canto mais escuro do palco. Lá, entre uma caixa de som estourada e um pedaço de sofá rasgado, dois olhos amarelos brilhavam na penumbra.
— "E aí, velho?", Zé agachou, estendendo a mão. O gato preto, magro como um punhal, cheirou seus dedos sujos de tinta e nicotina antes de esregar a cabeça na palma dele. "Tu também curtiu o som, né?"
O bicho tinha uma orelha cortada e uma cicatriz em forma de raio no lombo. Zé reconheceu: era o mesmo gato que aparecia nos shows há meses, sempre no mesmo lugar, como se fosse o mascote invisível da banda. Dessa vez, porém, ele não pulou pro colo de ninguém. Ficou parado, olhando fixo, como se quisesse dizer algo.
— "Vamo embora, Miau Colt", Zé apanhou o gato no colo. "Aqui já tá cheirando a polícia."
Lá fora, a madrugada lisboeta estava úmida e vazia. As ruas fediam a mijo e revolta. O gato se aninhou no casaco rasgado de Zé enquanto eles desciam a Rua da Madalena, passando por pichações que gritavam "Ninguém manda na gente". De repente, o animal pulou, correu até um beco e parou diante de um cartaz rasgado: "Demolição: amanhã".
— "Filho da puta", Zé cuspiu no chão. O porão onde tocavam ia virar estacionamento.
O gato miou, longo e desafiador, como um vocalista desafinando de propósito. Zé riu.
— "Tá certo, companheiro. Amanhã a gente volta com spray, martelo e guitarra. Eles querem enterrar a gente, mas esquecem que a gente é como barata... e gato de rua."
E sob o poste que piscava, os dois seguiram, sombras contra o sistema, prontos pra próxima batalha.